A árdua tarefa da defesa crítica do bolchevismo

SoB | Teoria | 23/12/2017 | 153 |



Abaixo publicamos a tradução do encerramento feito por Roberto Sáenz na Segunda Jornada do Pensamento Socialista realizada pelo Nuevo MAS - corrente internacional Socialismo ou Barbárie em Buenos Aires no dia 1 de dezembro de 2017.

“Dizer o que é”1

POR ROBERTO SÁENZ

Bem, há muitíssimas questões e é complexo dedicar-se à todas, então, me dedicarei a algumas. Primeiro pela pergunta de P. (NT.: Pablo Bonavena) sobre as dificuldades para que se repita um cenário como o da Revolução Russa: há dificuldades. No caso da Revolução Russa haviam outros tipos de mediações, não existia o reformismo e a burocracia sindical, nem as correntes reformistas com o peso orgânico imenso que hoje têm. Tanpouco existia o império universal da democracia burguesa. Menciono estes temas não para dedicar-me a eles, senão, para mostrar que há matizes, há diferenças, há problemas para pensar e, ao mesmo tempo, há ensinamentos universais.

Uma revolução sem igual

Não se trata de uma apropriação doutrinária da experiência revolucionária, há um problema de tempo, companheiros: a temporalidade da Revolução Russa foi impressionante. Em oito meses da Revolução Russa, que foi a revolução que se radicalizou mais rápido na história da experiência humana, o conjunto de experiências que se radicalizaram foi impressionante.

A Revolução Francesa também se radicalizou, mas levou vários anos: entre a tomada da Bastilha em 1789 e o apogeu revolucionário dos jacobinos, com seus limites, em 1793-1794, passaram-se cinco anos. Na Revolução Russa a radicalização do processo histórico se dá em somente oito meses. Lenin, em janeiro de 1917, na Suiça, estava dando uma palestra em um círculo socialista e afirmava que sua geração talvez “não fosse ver a revolução” e em janeiro de 1918 já fazia várias semanas que era o presidente do Conselho de Comissários do Povo..

Há especificidades da Revolução Russa, evidentes. Mas, também há ensinamentos universais: a forja de outra forma de militar que efetivamente faz o nosso que fazer cotidiano e que tem a ver com o sujeito. Nossa tarefa militante cotidiana é uma abordagem ao desenvolvimento da consciência da classe trabalhadora, em um sentido amplo: é um sujeito social e político muito distinto da ideia militarizada, guerrilheira, da revolução, aonde não há nenhum apelo ao protagonismo histórico dos trabalhadores2. Há uma prática política que vem do bolchevismo, apesar de todas as suas dificuldades, que tem a ver com uma interpelação da classe trabalhadora, em sentido amplo, para que seja sujeito de sua própria revolução. Isso é o bolchevismo: conta com o progresso na consciência dos trabalhadores que fazem sua revolução.

Este tema é muito importante e não se entende nem sequer dentro do trotskysmo, que está ulcerado de substitutismo no sentido negativo da palavra. Essa prática, essa forja que Lenin incorpora ao tema do partido: a aposta na elevação política da classe trabalhadora para alem do sindicalismo,  para além do “tradeunionismo” como o chamava ele. Forjou-se uma nova tradição que depois se alimenta com o balanço do século XX, o que é um outro problema porque não há balanço.

O balanço antibolchevique

Me coloco então rapidamente a pergunta de R. (NT.: Roberto Ramirez de Nuevo MAS): como é o “balanço antibolchevique”? Este balanço consiste em avaliar o governo de Lenin e Trotsky por fora das circunstâncias concretas da revolução e da contrarevolução, da guerra civil que obrigou a tomada de posições muito difíceis, porque não se deram nas mesmas condições de quando do ascenço da revolução: o que isso significava quando o processo ascendia (com a participação consciente dos trabalhadores em 1917) acerca do cenário da guerra civil.

A guerra civil é um momento bárbaro porque se militariza o enfrentamento3; não se pode enfrentar um exército sem um exército: centraliza-se, “burocratiza-se”, coloca dificuldades no desenvolvimento político e democrático da revolução. Os bolcheviques tiveram um conjunto de interrogações (verdadeiras “aporías”4) que fazem com que a nossa aprendizagem sobre a estartégia política, sobre a ação, que deve ser crítica mas não descontextualizada. Os bolcheviques se viram obrigados a improvisar durante o processo: de sua experiência devemos aprender a improvisar eventualmente menos.

Os bolcheviques fizeram fusilamentos, companheiros. Se os Brancos tomam reféns e você não toma reféns, a população indecisa, centrista, vé que tens medo e se vai com a contrarevolução. São questões colocadas objetivamente e sumamente complexas. Ainda assim, existem os erros, a cegueira dos bolcheviques: é evidente que houve vários erros. Um muito claro em 1921. Lenin, para forçar a unidade do partido, mecanicamente, colocou a proibição de frações e tendências... Gravíssimo erro!

É longo de contar. Mas, não havia realmente outra instituição democrática na vida da revolução nesse momento (um momento sumamente difícil à saída da guerra civil!), que não o partido bolchevique. No décimo Congresso haviam oito tendências e todas desapareceram. Lenin havia declarado a medida como uma “cláusula provisória” (ainda que não tenha se explicitado assim!) e depois Trotsky dirá que essa foi a justificação jurídica do estalinismo. Já em 1923 Stalin saca o capítulo 7 de uma resolução secreta que continha dita proibição e diz aos integrantes da “Plataforma dos 46” (a primeira plataforma anti-estalinista): “Atenção que isso é uma fração e estão proibidas as frações”...

Este foi um dos mais graves erros do bolchevismo no poder, ainda que tenham havido muitos outros (ver o artigo “Elementos para um balanço do governo bolchevique” - NT.: a ser publicado por SoB Brasil). È complexo o ponto. O disse Bonavena muito bem: o atraso russo se tornou uma revanche também, óbvio. È como quando Engels disse: “cuidado com lutar contra a natureza porque ela é mais objetiva que nós, que a humanidade, e nos devolve centuplicado o golpe”. Com o bolchevismo se passou algo parecido: o primeiro movimento foi a ofensiva com a revolução, mas depois veio todo o atraso, todas as dificuldades, etc... Requer-se um balanço honesto, crítico, a fundo, não a superficialidade autonomista que anda por aí (superficialidade a que se referia Camarero quendo falava do clima dominante no trotyskismo francês acerca do balanço da revolução).

Trotsky em sua palestra de 1932 em Copenhagen (“O que foi a Revolução Russa?”) afirma que uma característica central dos revolucionários é a honestidade: dizer o que é. Esta é também uma luta com o restante das correntes que em seu doutrinarismo lhes custa muito dizer o que é: fazer o balanço. Dizer o que é não é fácil companheiro, somos pigmeus, parece pedante que possamos realizar críticas ao bolchevismo. Que entre Lenin porta adentro para salvar-nos!

Porque, ao mesmo tempo, dizer o que é a partir de nossa estatura anã é muito difícil quando se chega com uma experiência à um encontro maior, universal. Dizer o que é não é sensível: é um exercício de muitíssima responsabilidade e seriedade, que o fazemos desde o terreno da defesa crítica do bolchevismo. A partir daí, humildemente, dizemos coisas, tratamos de passar elementos de balanço.

Classe e partido  

Para terminar assinalo que li um estudo recente que diz que na Africa, de hoje até 2050, irão existir 700 milhões de assalariados, companheiros!. Escutaram bem: Africa vai ter uma das maiores classe trabalhadora do mundo em poucas décadas!

Esse é o debate com Claudio (NT.: Claudio Katz, prof. dr. da UBA): a revolução é um evento onde interagem e se enfrentam sujeitos sociais e políticos, no terreno criado pelas condições históricas, pela luta geo-política, pela economia, é onde atuam os sujeitos sociais e políticos. Como se define uma estratégia transformadora sem uma compreensão dialética dos sujeitos em luta? Nós fazemos uma aposta categórica nesse sentido: a partir da classe trabalhadora em um sentido amplo até a juventude, até o movimento de mulheres, ao tema ecológico, etc...

Há milhares de razões. Mas há um tema que tem a ver com uma tradição da classe trabalhadora que não é teórica, que não a iventou Marx, mas que vem de sua própria experiência que é a decisão coletiva. O companheiro só, individuamente, se sente pouco ou nada. Mas o companheiro na assembléia sente a força do coletivo e tem o que fazer da luta que não é algo inventado pelos marxistas revolucionários.

É o que fazer de agrupar-se, de discutir na assembléia, votar todos juntos: aí o companheiro se sente forte. Essa forja não é a mesma do campesinato, porque este tende a ser individualista por suas próprias características; este é um debate histórico e estratégico. Por isso, no caso dos processos anticapitalistas do pós-guerra, a classe trabalhadora não pode entrar introjetando a dinãmica socialista dos mesmos.

O campesinato é mais passível de construções bonapartistas (desde acima) que a classe trabalhadora, a qual tem elementos objetivos, que não inventamos os marxistas, que tem a ver com a lógica da agregação (Marx falava do campesinato com uma “sacola de alimentos” onde o comum entre eles é que todos eram alimentos, mas que não havia mais elementos de agragação que esse).

Atenção que a classe trabalhadora é maior do que nunca! Perguntem à FOXCOM, que tem cem mil trabalhadoras juntas (as mulheres são maioria)! O sujeito é fundamental, não é uma abstração: faz a definição da política, da estratégia, do partido, que é ou constitui o sujeito político por excelência.

Tradução de Carlos Vera

 

Notas

1 Se trata de uma afirmação de Trotsky sobre a honestidade que deveria ter siempre o marxismo revolucionário, o bolchevismo: dizer o que é por mais amargo que seja.

2 De un sujeito social deriva um sujeito político muito distinto: o partido revolucionário como máxima expressão da subjetividade do setor mais avançado da clase trabalhadora e todos os ensinamentos de Lenin a respeito, absolutamente vigentes hoje. Voltaremos a isto em seguida.

3 Pablo Bonavena se refiriu várias vezes em sua intervenção ao “uso instrumental da violência na revolução”. Em cualquer caso haveria que clarificar com ser inevitável o uso da violência, mas que o “instrumental” deve ser sempre un meio para un fim: a emancipación do proletariado, o triunfo da revolução emquanto uma revolução socialista.

4 Paradoxo e dificuldade lógica insuperável.

 


As mais lidas