Resultado da eleição do DCE da USP

SoB | Juventude | 27/11/2017 | 323 |



Resultado da eleição do DCE da USP

Derrota da esquerda em uma conjuntura adversa

POR MARTIN CAMACHO

Nos dias 7,8 e 9 de novembro aconteceu a eleição para escolher a nova direção do Diretório Central dos Estudantes (DCE).

Até hoje, poucas análises foram feitas do que representa o triunfo da chapa Nossa Voz (PT, Levante Popular e a UJS). Estas organizações não estavam presentes no movimento estudantil nos últimos anos, as lutas feitas nos últimos tempos passaram por organizações da esquerda que compõem o Bloco de Esquerda na UNE.

Um dos problemas principais em nossa opinião, Socialismo ou Barbárie-tendência do PSOL, que fizemos parte da gestão que terminou agora, foi que a conjuntura nacional mudou drasticamente no último período, e isso teve um forte peso sobre o resultado da eleição.

Os ataques feitos pela direita reacionária, que comanda hoje o Brasil, influenciaram na correlação de forças no interior do movimento estudantil, principalmente na USP. Isso porque o setor dos estudantes que millita pelo PT acabou se colocando como vítima e como setor que pode fazer frente à essa ofensiva da direita.

Além disso, o que deu vitória para essa burocracia estudantil ligada ao PT foi um discurso de baixíssimo teor político, ou seja, diziam que era necessário votar na oposição porque o DCE estava sendo dirigido há muito tempo pela mesma força política (sic) e que por isso não poderia resolver os problemas dos estudantes. O velho discurso substituista e eleitoreiro do PT e de todas as forças oportunistas que em vez de chamar para a luta a partir de um programa concreto prometem resolver os problemas dos trabalhadores, da juventude e do povo em geral.  

Esse é um discurso baseado na unilateralidade e na aposta na desmobilização dos estudantes. Discurso prejudicado desde a sua base metodológica pois usa argumentos que não dizem respeito à realidade concreta, argumentos que só podem ter adesão dos estudantes em uma situação de confusão política total. E o pior é que disputaram o DCE para o utilizar como instrumento na campanha eleitoral para o PT, assim podem manter certo perfil juvenil que hoje está sendo disputado pela direita, MBL ou outros grupos que têm crescido com o descrédito generalizado.

O PT estava ausente e sem política durante os últimos anos, mas depois que perderam o governo e sua base social voltaram a fazer política estudantil. Assim, trouxeram para a eleição do DCE da USP e para outros processos eleitorais os métodos burocráticos que estão acostumados a utilizar no movimento operário.

Ou seja, colocam o aparato nacional nas eleições para desiquilibrar a correlação de forçar momentaneamente, para logo depois desenvolver uma gestão meramente eleitoreira, burocrática, sem mobilizações e organização dos estudantes. Uma gestão que irá refletir uma conjuntura de refluxo - situação em que melhor se manifestam as organizações burocráticas - e que não irá servir para que o movimento estudantil superar sua baixa momentânea.

Além dos elementos mais objetivos que apontamos acima, é preciso entender qual foi a influência da política da esquerda socialista sobre o processo.

Certas organizações do campo da esquerda socialista, nosso campo político, colocam que a partir do crescimento da direita a unidade política com o PT em todas as ações é fundamental. Isso parte da análise de que em 2016 houve um golpe e já estaríamos em uma situação contrarrevolucionária.

Caracterização com a qual discordamos, pois temos que construir a mais ampla unidade com todos contra a reitoria, Temer e todos governos burgueses e patrões, mas é fundamental construir também uma alternativa para ao lulismo no movimento estudantil, operário e popular, isso é uma necessidade histórica que, apesar de todas as dificuldades, tem uma brecha aberta diante da debacle política e moral desse setor.

Além disso, as eleições colocaram outros problemas que temos que levar em conta. Por um lado, há um certo afastamento do dialogo com a base estudantil, fato que tem a ver com a conjuntura de pouca mobilização que vivemos. Contrária ao primeiro semestre que contou com a greve geral do dia 28 de abril e com a viagem à Brasília contra Temer. Assim, depois da obtenção das cotas não foi possível ter mobilizações significativas, o que foi aproveitado por outras forças políticas para se fortalecer nos cursos.

A tarefa é tomar esta derrota como uma lição para os próximos tempos que estão por vir, mas para isso faz falta a unidade da esquerda socialista enfrentando tanto o oportunismo dos setores que se dizem populares quanto, por outro lado, a direita reacionária que está incrustada na reitoria agora com o novo reitor. Por isso, temos que fazer uma clara diferenciação entre os diferentes campos e não jogar mais confusão em uma conjuntura que já é confusa em si para muitos estudantes.

Por isso, em nome do Socialismo ou Barbárie, fazemos este balanço incial com a perspectiva de aprofundar a discussão, tirar as principais lições desse processo e seguir construindo o Bloco de Esquerda pela base, na luta dos estudantes e de forma antiburocrática. Assim temos que seguir dialogando nos cursos, seguir dando a batalha para que o DCE mesmo sob a direção dessa burocracia lute por melhores condições de estudo e permanência, democracia e uma universidade 100% pública e gratuita.

 

 

 

 

 


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