Trump reconhece Jerusalém como capital de Israel

SoB | Internacional | 10/12/2017 | 102 |



O estabelecimento de Jerusalém como capital de Israel com apoio dos EUA 

A questão é mais política e crítica do que parece

ROSI LUXEMBURGO

Não demorou muito para ocorrer repercussões no Mundo Árabe contra os EUA acerca de seu reconhecimento de Jerusalém como nova capital de Israel. Na noite desta quarta-feira, centenas de palestinos tomaram às ruas da Faixa de Gaza e o Hamas já está convocando mais manifestações na região.

A crise parece estar apenas começando, um jornal pró-Hezbollah, o al-Akhbar do Líbano, declarou “morte à América” em sua primeira edição na manhã desta quinta-feira. A Jordânia, que abriga uma grande população palestina, pode ser o centro dos conflitos nos próximos dias. Com medo da reação do grupo Hezbollah (grupo apoiado pelo Irã), os EUA tornaram público hoje o fechamento de sua embaixada e pediram que diplomatas e suas famílias fiquem em casa.

Sempre foi com aval estadunidense que Israel desrespeitou todas as determinações da ONU sobre sua política de "Direitos humanos" desde a criação artificial de seu Estado em 1948. A ONU, por sua vez, sempre foi conivente com os embargos e ataques a cidades, patrimônios históricos e a civis palestinos, deixando muitas vezes, não só implícita, mas explicitamente sua indiferença nos conflitos entre Israel e Palestina.

Desta maneira, (apesar de já haver alguns apelos) acreditamos que dificilmente a organização tomará medidas radicais a respeito do tema atual. Qualquer reação da ONU, dependerá muito da pressão da comunidade internacional para que esta tome medidas mais incisivas a respeito da posição absurda e unilateral de Israel e principalmente dos EUA. Até agora oito países já se opuseram à decisão de Trump, e pediram uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU para essa semana. (1)

Porém, a política no Mundo Árabe, acontecem em fração de horas e tudo indica que o derramamento de sangue é inevitável. Os interesses econômicos e geopolíticos entre Casa Branca e Israel estão acima do sofrimento de qualquer povo. EUA tem em Israel um parceiro estratégico e fundamental na região, manter a todo custo um aliado cada vez mais forte ali é um ótimo negócio para os interesses estadunidenses. Trata-se de manter uma posição geográfica privilegiada no mapa árabe e de região de riqueza mineral importante, de maioria muçulmana e que acumula profundos desafetos com os EUA.

Assim, um cenário ainda mais crítico se coloca no âmbito institucional e das "relações" entre Palestina e Israel, no qual o caráter colonizador sionista e imperialista de Israel aparece ainda mais de mãos dadas com os EUA, assim os pactos comerciais e principalmente bélicos entre os países tendem a se fortalecerem.

O reconhecimento pelo presidente americano Donald Trump de Jerusalém como a capital israelense, além da transferência imediata de sua embaixada localizada em Tel Aviv, para a nova "capital", sinaliza uma declaração oficial da principal economia do mundo de invisibilidade dos direitos do povo palestino e da ingerência americana nesta região extremamente conflituosa.

Ainda não é possível medir se haverá algum recuo tático dos EUA. O fato é que sua medida unilateral não só anula qualquer possibilidade de acordo entre Israel e palestinos, como fragiliza ainda mais a política de segurança interna de seu país, colocando-o novamente como principal alvo de atentados terroristas no Ocidente. As reações externas e internas do país podem responder tal questão, já nos próximos dias.

Jerusalém atualmente congrega o culto das três maiores religiões do globo, a saber: o cristianismo, o judaísmo e as de tradição muçulmana. Dessa forma, o estabelecimento da direção política de Jerusalém a cargo de um estado teocrático em uma região dividida, além de um desacato político significa uma afronta ao direito de livre culto e credo religiosos dessas tradições. Espera-se que milhões de cristãos e muçulmanos não aceitem com facilidade que seus locais sagrados estejam totalmente sob a hegemonia de Israel.

A ONU, da mesma forma que a maioria dos países pró imperialistas, não reconhece a anexação de Jerusalém Oriental, a considerando território ocupado, além de uma violação do Direito internacional. Isso coloca a Palestina em um cenário de marginalização política em âmbito internacional sobre o tema, e como sempre só resta a Palestina com suas próprias forças e de seus aliados locais a resistência a nível regional. Por essas razões, a possibilidade de uma nova Intifada não está descartada. O apoio da esquerda internacional a resistência Palestina e seus instrumentos e métodos de luta é fundamental. Manifestações em embaixadas poderiam dar um primeiro sinal positivo e a esquerda sobre a questão.

Assim, Tel Aviv não mais como capital de Israel e sim Jerusalém, traz além de um conteúdo simbólico, um conteúdo extremamente material e geopolítico no Oriente Médio. Trata-se de uma demonstração inequívoca de violação política e econômica de Israel com apoio externo que se consolidada resultará em um maior fortalecimento politico e bélico desse Estado com patrocínio estadunidense, calcado principalmente na expansão territorial e no massacre do povo palestino. Assim, o sequestro político-religioso de Jerusalém escancara a falsa mediação e neutralidade estadunidense no território, além da inegável incompatibilidade da existência de dois Estados na região.

Abaixo o estado sionista de Israel! 
Pela autodeterminação dos povos, Fora Trump! 
Palestina livre!

(1) Os primeiros países a se manifestarem contrários a decisão americana foram, Bolívia, Egito, França, Itália, Senegal, Suécia, Reino Unido e Uruguai.


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